Ambientalistas se retiram de conselhos do governo gaúcho

RSvermelhoSinais claros de que a política ambiental do Estado do Rio Grande do Sul está com sérios problemas são evidenciados, mais uma vez, com as saídas, quase simultânea, dos conselhos estaduais do Meio Ambiente (Consema) e de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) de duas das mais importantes entidades ambientalistas gaúchas.

A Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), entidade sem fins lucrativos que atua há mais de 42 anos no RS e no Brasil em defesa da preservação do ambiente natural, e a Associação Igré (Amigos da Água em Tupi-Guarani) integram a Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul (Apedema-RS), junto com outras 35 entidades.

As determinações decorrem das percepções de alguns ativistas e dirigentes de entidades ambientalistas de que as formas como os referidos conselhos atuam não servem aos propósitos da luta pela preservação ambiental. As entidades entendem que os conselhos só estão as usando para referendar e legitimar decisões pré-concebidas entre governo e empresas privadas. Cabe ressaltar que esses posicionamentos ocorrem em um cenário no qual a Operação Concutare, deflagrada no final do mês de abril pela Polícia Federal, investiga as participações de dois ex-secretários da Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema): um do governo Yeda Crusius (PSDB) e outro do atual governo petista.

A decisão unilateral da Agapan pegou o governo de surpresa. O secretário do Meio Ambiente, Neio Lúcio Pereira (PCdoB), e o presidente da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam), Nilvo Silva, solicitaram uma agenda com a presidência da Agapan para tentar contornar a situação. As reuniões foram realizadas no dia 22 de julho. Ambos os dirigentes públicos solicitaram o retorno da Associação ao Consema. O convite foi recusado.

Caso a Apedema-RS julgue coerente, poderá indicar os nome de outras entidades que aceitem substituir a Agapan no Consema e a Igré no CDES.

Vermelho no verde?

Figura enigmática e central nessa questão envolvendo a Sema é o Partido Comunista do Brasil (PCdoB). O ex-secretário Berfran Rosado (PPS – RS) – com investigação em curso pela Concutare – mantinha estreita ligação com a deputada comunista Manuela D’Ávila (PCdoB – RS). Ambos, já formaram chapa para concorrer à prefeitura de Porto Alegre. Na ocasião, o PCdoB já havia trocado o tradicional vermelho por cores rosadas ao estilo “Barbie”. Além da característica cor, as significativas foice e martelo, que por décadas identificavam a legenda, também perdiam espaço em âmbito nacional para o novo ícone empunhado pelo deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB – SP): a motosserra ruralista. O comunista foi o relator da proposta que ceifou as principais proteções ambientais do novo Código Florestal Brasileiro.

No Rio Grande do Sul, a chegada do novo governo estadual, encabeçado por Tarso Genro (PT), conduziu à frente da pasta do Meio Ambiente a comunista Jussara Cony, que foi sucedida pelo colega de partido Carlos Fernando Niedersberg. Ambos são suspeitos de envolvimento nos esquemas de facilitação de licenças ambientais no estado. Niedersberg foi preso junto do ex-secretário estadual Berfran Rosado e do ex-secretário municipal do Meio Ambiente de Porto Alegre Luiz Fernando Záchia. No lugar de Niedersberg assumiu o também comunista Neio Lúcio Pereira.

Histórico

No dia 10 de julho, a Agapan anunciou a sua saída do Consema. “A composição minoritária que temos nos coloca em uma condição de incompatibilidade, gerada pelos conflitos de interesses inconciliáveis, que inviabilizam as finalidades institucionais do próprio Consema”, afirmou a conselheira da Agapan Edi Xavier Fonseca em nota divulgada no blog da entidade.

Quinze dias depois, em 27 de julho, a Igré define sua saída do CDES com a seguinte justificativa: “Estamos convencidos de que a nossa presença e possível atuação junto ao CDES não vem correspondendo satisfatoriamente às expectativas geradas pelos movimentos ambientalistas institucionalizados da sociedade civil no que se refere ao atendimento das demandas básicas definidas ao ensejo de nosso ingresso naquele conselho”.

Heverton Lacerda

Jornalista e secretário-geral da Agapan

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Apedema/RS protocola carta para autoridades gaúchas em protesto contra a ampliação dos megainvestimentos em Celulose no RS

316571_398712140205635_2128032699_nA Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul – Apedema/RS, vem a Vossa Senhoria manifestar sua posição em relação à ampliação de megainvestimento da Celulose Riograndense em nosso Estado.

Na década de 70, justamente durante o surgimento do movimento ambientalista no Brasil, e em especial com a criação da Agapan, houve um dos mais importantes embates contra as empresas poluidoras no Estado do Rio Grande do Sul. Tratava-se do caso da empresa de celulose Borregaard, que começou suas atividades, em 1972, na cidade de Guaíba. O nome da empresa chegou a ser sinônimo de mau cheiro (odor de repolho podre) que afetava a zona sul de Porto Alegre e, não raras vezes, toda a cidade.

Em 1974, a referida empresa teve o cancelamento de seu funcionamento por mais de três meses até que resolvesse todos os aspectos relativos às emissões aéreas e aos efluentes resultantes de sua operação, considerados nocivos à saúde pública e ao meio aquático. Depois da Borregaard, veio a Riocell, logo depois a Aracruz, e agora a Celulose Riograndense, de capital chileno (CMPC). Esta última anuncia agora sua ampliação (de 400 milhões de toneladas para 1,75 milhões de toneladas), alardeando a criação de milhares de empregos, como a Aracruz fez em 2008, antes de quebrar. Mas pouco se fala que 90% da celulose produzida serão para exportação e menos de 10% para sua transformação em papel, aqui no Brasil.

Cabe lembrar que em 2008, a então empresa Aracruz, que anunciava também a ampliação da planta industrial, e que possuía investimentos do BNDES, tinha aplicado em derivativos (especulação financeira), tendo sido afetada pela crise econômica mundial, gerada nos EUA, vindo a perder em poucas semanas algo como 2 bilhões de reais.

Nestas quatro décadas, o crescimento da planta industrial não eliminou, de todo, o cheiro ruim, principalmente no município de Guaíba. Além disso, pairam sérias dúvidas, de parte de técnicos da FEPAM e também de ambientalistas de renome, como o Prof. Flávio Lewgoy, sobre os sérios riscos à saúde humana e meio ambiente, ligados a enorme carga de poluentes (dioxinas, furanos, gases de enxofre, etc.) gerados por este e outros empreendimentos industriais concentrados na região.

Cabe destacar que estamos lidando com um voo no escuro, tanto do ponto de vista ambiental como econômico. Atualmente, a Fepam tem sua rede de monitoramento da qualidade do ar na Região Metropolitana de Porto Alegre praticamente sucateada, ou seja, sem funcionar. Por outro lado, a SEMA não consegue fiscalizar a implantação de todos os megaplantios de eucalipto que convertem parte importante do que resta de campos nativos do bioma Pampa, por falta crônica de técnicos e de condições adequadas de trabalho. Esta semana, mais uma vez, documentos das associações de funcionários da Fepam e Ddfap chamam a atenção à sociedade gaúcha sobre a falta de solução também com respeito ao prédio parcialmente interditado da SEMA, há quase 10 meses.

Em relação a estes megaempreendimentos de celulose associados a monoculturas arbóreas – também criticados no Chile, Uruguai e Argentina – há alguns anos, o escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu umartigo marcante, denominado “Salva vidas de Chumbo” (2007) questionando semelhantes megainvestimento de celulose em seu país:

O que esses esplendores nos deixaram? Nos deixaram sem herança nem bonança. Jardins transformados em desertos, campos abandonados, montanhas esburacadas, águas apodrecidas, longas caravanas de infelizes condenados à morte antecipada, palácios vazios onde perambulam fantasmas…Agora, chegou a vez da soja transgênica e da celulose. E outra vez repete-se a história das glórias fugazes, que ao som de seus clarins nos anunciam longas tristezas.[…] A celulose também está na moda, em vários países. Agora, o Uruguai está querendo se transformar num centro mundial de produção de celulose para abastecer de matéria prima barata as longínquas fábricas de papel. Trata-se de monocultivos para a exportação, na mais pura tradição colonial: imensas plantações artificiais que dizem ser bosques e se convertem em celulose num processo industrial que arroja detritos químicos nos rios e torna o ar irrespirável.

 

O Estado do Rio Grande do Sul não merece ser, mais uma vez, palco de megainvestimentos de alto risco, ligados a um jogo econômico que, de antemão, concentra capital na mão de poucos, espalha monoculturas e ameaça a saúde da população e ao meio ambiente.

 

A sociedade gaúcha clama a responsabilidade de seus governantes para que se abandonem as atividades calcadas em gigantescos empreendimentos, de alto risco, e priorizem sua atenção aqueles setores que mais estão associados à sustentabilidade econômico-ecológica como as tecnologias sociais, associadas prioritariamente em energias brandas, a agroecologia, ao turismo rural e ecológico, entre outros.

 

Porto Alegre, 12 de dezembro de 2012.

 

Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente do RS

 

Afiliadas  da Apedema/RS (em ordem alfabética)

Atualização: Janeiro de 2012

 

Ação Nascente Maquiné (ANAMA/Maquiné);

Amigos da Paisagem Preservada de Quintão (APAIPQ/Palmares do Sul);

Associação Ambientalista Biguá (Arambaré);

Associação Ambientalista da Costa Doce (A.A.C.D/Camaquã);

Associação Amigos do Meio Ambiente (AMA/ Guaíba);

Associação Amigos do Meio Ambiente  (AMA/Carazinho);

Associação Bentogonçalvense de Proteção ao Ambiente Natural (ABEPAN/Bento Gonçalves);

Associação de Preservação da Natureza Vale do Gravataí (APN-VG/Gravataí);

Associação Ecológica Canela (ASSECAN/Canela);

Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN/Porto Alegre);

Associação Ijuiense de Proteção ao Ambiente Natural (AIPAN/ Ijuí);

Associação Sãoborjense de Proteção ao Ambiente Natural (ASPAN/São Borja);

Centro de Estudos Ambientais (CEA/Pelotas/Rio Grande);

Fundação Gaia (Porto Alegre);

Fundação Mo’ã (Santa Maria);

Grupo Ecológico Guardiões da Vida (GEGV/Passo Fundo);

Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas (GESP/Passo Fundo);

Maricá – Grupo Transdisciplinar de Estudos Ambientais (Viamão);

ONG H2O Prama (Porto Alegre);

Igré – Associação Sócioambientalista (Igré/Porto Alegre);

Instituto Ballaena Australis (Santa Vitória do Palmar);

Instituto Biofilia (Porto Alegre);

Instituto Econsciência (Porto Alegre);

InGá – Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais (Porto Alegre);

Instituto Orbis de Proteção e Conservação da Natureza (Caxias do Sul);

Instituto Patulus (InPa/Bento Gonçalves);

Movimento Ambientalista Os Verdes de Tapes (Tapes);

Movimento Ambientalista Verde Novo (São Lourenço do Sul);

Movimento Roessler para Defesa Ambiental (Novo Hamburgo);

Núcleo Amigos da Terra Brasil (NAT/Porto Alegre);

Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (NEMA/Rio Grande);

Biofuturo – ONG Resgatando o Futuro da Biodiversidade (Santa Maria, RS);

ONG Solidariedade (Porto Alegre);

Projeto MIRASERRA (Porto Alegre e São Francisco de Paula);

União Pedritense de Proteção ao Ambiente  Natural (UPPAN/Dom Pedrito);

União pela Vida (UPV/Porto Alegre);

União Protetora do Ambiente Natural – UPAN (São Leopoldo, RS)

 

Abraço ao Guaíba será no dia 21/04

Abraço de 1988 - Reprodução

O amor ao seu rio é uma característica dos porto-alegrenses (de nascimento e por opção). Na capital gaúcha, o sentimento de respeito por nossa gente, nossas tradições e nossos recursos naturais não é diferente do interior do estado. Pelo contrário, esse sentimento é tão forte e integrado aos costumes do Rio Grande do Sul que faz com que os moradores dessa terra sejam reconhecidos internacionalmente pelo orgulho de ser gaúcho.

O Hino rio-grandense, por exemplo, é ensinado em casa, nas escolas, nas ruas, nos estádios de futebol. Cantar o Hino do Rio Grande do Sul, com força e entusiasmo, é honrar a nossa história e afirmar, com amor e emoção: “Eu sou gaúcho. Eu amo a minha querência!”. (veja o Hino abaixo)

Mas não basta, pra ser livre, ser forte, aguerrido e bravo. Povo que não tem virtude acaba por ser escravo”.

E são as virtudes do gaúcho que fazem com que o povo do RS seja acostumado a “pelear” por sua gente e por sua terra. Foi aqui que surgiu, em 1971, a Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), primeira entidade ambiental do Brasil, que nesse mês de abril completa 41 anos.  O pioneirismo da Agapan, que iniciou suas atividades sob a liderança de José Lutzenberger, foi protagonista de diversas passagens ambientalistas de protesto e educação ambiental. Em 1988, integrou a força ambientalista brasileira, que foi fundamental para a introdução do capítulo de Meio Ambiente na Constituição do Brasil. Naquele mesmo ano, foi uma das incentivadoras do Ato Público de Abraço ao Rio Guaíba.

Nesse ano, em parceria com as ONGs Ingá Estudos Ambientais, Solidariedade e Instituto de Comunicação Social e Cidadania, a Agapan apoia mais um Abraço ao Guaíba. O evento acontece no dia 21 de abril, durante o Hanamatsuri (Festa das flores japonesa), que acontece na Usina do Gasômetro.

“Entendemos que a Orla é um espaço público, para as pessoas usufruírem, e assim deve ser ocupada, com equipamentos que atraiam a população até ela”, destaca Francisco Milanez, presidente da Agapan.

PARTICIPE DO ABRAÇO AO GUAÍBA

Dia: 21.04.2012
Hora: 16h
Local: Orla do Guaíba, próximo à Usina do Gasômetro
 

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… e no estádio Beira-Rio

Mais uma hidrelétrica do PAC é questionada por ambientalistas

Se Belo Monte é a usina hidrelétrica brasileira mais polêmica atualmente, não é, por certo, a única que levanta suspeitas quanto aos Estudos e Relatórios de Impactos Ambientais incompletos realizados pelas próprias empreiteiras das obras. Projetada para ser construída na divisa dos estados do Rio Grande e Sul e Santa Catarina, a Usina Hidrelétrica Pai Querê (292MW) teve Audiência Pública realizada em Porto  Alegre, na última sexta-feira, 23, que se prolongou até a madrugada de sábado. Sob a sombra das irregularidades praticas na construção da UHE de Barra Grande, Pai Querê é analisada por estudiosos e ambientalistas com muitos questionamentos.

Leia a reportagem da jornalista Adriane Bertoglio Rodrigues, da Agapan.

Em audiência pública, críticas ao projeto de Pai Querê objetivam impedir sua licença, pelos impactos ambientais e sociais

Críticas à qualidade técnica do Estudo e do Relatório de Impacto Ambiental (Eima-Rima) da Hidrelétrica de Pai Querê, que pode represar o Rio Pelotas, na divisa entre RS e SC, conduziram as oito horas de Audiência Pública, realizada na noite de sexta-feira (23/3) em Porto Alegre. Entre vaias e aplausos, mais de 300 pessoas, entre técnicos, professores, estudantes universitários e ambientalistas, além de representantes de setores da economia do município de Bom Jesus, um dos atingidos pela Hidrelétrica, permaneceram nas dependências do Sindicato dos Engenheiros do RS (Senge) até às 3h de sábado. Foram muitas as manifestações, que contribuirão para o Ibama definir sobre a questionada liberação da obra, cujo custo está orçado em R$ 1 bilhão. O que não está calculado é o custo ambiental e social que essa obra pode causar na região, o que motivou críticas ao projeto e aos estudos.

A “novela” Pai Querê é antiga, data dos anos 70. Na verdade, segundo o Programa de Aceleração do Crescimento, a hidrelétrica estava prevista para estar funcionando desde abril de 2008. Mas existem muitos impedimentos pela inviabilidade ambiental da obra, que ainda está sendo discutida, no Ibama, ademais depois da desastrosa UHE Barra Grande. Os 334 proprietários que podem ser atingidos não são considerados nem pelas empresas, nem pelo Ibama, que tem sido vítima de constantes mudanças na sua Presidência, cada uma “afrouxando” mais os processos de licenciamento. Ambientalistas questionam a construção da hidrelétrica, que pode alagar 4 mil hectares de florestas e mil hectare de campos nativos, o que totaliza centenas de hectares de florestas em estágio avançado de sucessão que serão perdidos. Isso tudo para produzir 292MW, “pouco, pelos estragos que vai causar”, critica a ambientalista da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), Edi Fonseca. “Por que sempre alagam as áreas mais bonitas, preservadas e ricas em biodiversidade”, questiona.

Durante a audiência, várias manifestações contrárias ao empreendimento foram protocoladas, entre elas a do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (que reúne órgãos governamentais e não governamentais do Estado) “Desde 2003 nos manifestamos contra esse licenciamento”, diz Maria Isabel, ao destacar que em 1994 a área foi tombada pelo Iphae (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado), pelo seu valor ambiental, ou alta biodiversidade, como define o Ministério do Meio Ambiente. Para ela, o impacto da hidrelétrica deve ser visto em conjunto com as barragens de Machadinho e Barra Grande. “O conhecimento dos impactos ambientais e sociais já estão consolidados e nos faz concluir que o empreendimento é inviável”, critica a representante do Comitê.

Mais de 30 técnicos da Fundação Zoobotânica do RS também se manifestaram insatisfeitos com o estudo, e questionam a sub-valorização da importância biológica e ecológica da área, pelos impactos na região. “Temos convicção que, pelos atributos ecológicos, a área, com floresta de araucárias e campos nativos, é insubstituível e os danos não poderão ser compensados por quaisquer medidas que possam ser apresentadas”, lê o documento o técnico Marco Azevedo, ao afirmar que “a liberação de Pai Querê não se justifica”.

O Ingá Estudos Ambientais também entregou uma manifestação ao Ibama, com 25 considerações, e pede respostas individuais. “Queremos que cada indagação a respeito do projeto seja respondida”, diz Eduardo Luís Ruppenthal, professor de Biologia e mestre em Barragens pela Ufrgs. As ONGs Curicaca, Mira-Serra e Igré também participaram da audiência.

O Ibama vai analisar as gravações e os documentos protocolados. As entidades podem encaminhar laudos e pareceres técnicos ao Ibama num prazo de 15 dias, a contar da audiência. O Instituto tem de 60 a 90 dias para então divulgar o parecer técnico da construção de Pai Querê. A avaliação do impacto ambiental vai definir se a obra é viável.

ENDEMISMO

“Os danos são gravíssimos e irreversíveis”, afirma Demétrio Guadagnin, professor de Ecologia pela Universidade Federal de Santa Maria, onde desenvolve pesquisas de conservação e manejo da vida silvestre. Segundo ele, a área é prioritária para a conservação e o trecho selecionado para o empreendimento é o de maior diversidade, com remanescentes da Mata Atlântica, espécies em risco de extinção, como o Queixada, e endêmicas, que ocorrem somente nesse bioma. “Se a obra acontecer, o Rio Pelotas vai deixar de existir e se transformar numa sequência de lagos”, lamenta Guadagnin, ao criticar o Eia-Rima por não atender ao Artigo 4º da Portaria 297 do Ibama. Ele questiona se “os executores do Eia-Rima têm conhecimento técnico desse documento” e solicita manifestação do Ibama sobre o mesmo.

Muitos foram os questionamentos e os empreendedores, com respostas vagas, se defenderam, alegando estar de acordo com o plano decenal de energia elétrica, mantido pelo Governo Federal e atualizado anualmente via consulta pública, que define como e quais as alternativas de energia que o Brasil vai priorizar e desenvolver. É por isso, defendem, que o projeto de construção de uma hidrelétrica não contempla sequer o estudo de alternativas de menor impacto.

Para José Truda Pallazo Jr, conservacionista integrante da Rede Costeira de Proteção às Baleias, foi agraciado pela Prefeitura de Porto Alegre como Protetor do Verde Público e recebeu a medalha do Cinquentenário dos Parques Nacionais, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (antigo IBAMA), “o empreendedor está no seu papel”. Ele lastima que haja tantos erros no inventário florestal. “Teorias e suposições”, critica, ao pedir que o Ibama não conceda qualquer licença ao empreendimento, enquanto não sejam concluídos os estudos e análises. “Preocupa o papel que vai tomar o órgão ambiental licenciador”, alerta Palazzo.

“A polarização de ideias na audiência pública e a tentativa de sub-informar os cidadãos de Bom Jesus, essa coação, parece uma luta travada do bem contra o mal, o que é um equívoco”, lamenta o professor de Biofísica da Ufrgs, Jorge Quillfeldt, que defende o corredor ecológico e diz que sua constituição na entre bacias hidrográficas “vai depender da Presidência da República, em relação às via obras do PAC”.

ÁREA É INSUBSTITUÍVEL

Para o professor de Ecologia da UniLaSalle, Eduardo Dias, a área de Pai Querê é um dos últimos locais que podem compensar Barra Grande, muito lembrada e criticada durante a audiência. Dias questiona uma possível liberação da obra pelo Ibama, já que a área possui espécies em extinção, fragilidade dos campos nativos não diferenciados dos exóticos, levantamento sazonal errado, entre outros erros que, acredita o professor, “serão evitados com o impedimento da obra”.

Outro professor de Ecologia, Andrés Kindell, da Ufrgs, questiona o uso “da mesma abordagem fraudulenta de Barra Grande”, ao criticar que, no caso de Pai Querê, o licenciamento da obra é concedido antes do planejamento, tanto das medidas compensatórias, como do consumo residencial e o das empresas que integram o consórcio, em especial a Alcoa e a Votorantim.

O biólogo e professor da Ufrgs, Paulo Brack, lamenta que as pressões políticas do Ministério de Minas e Energia têm abortado os estudos integrados das bacias, e critica a postura da assessora do Ministério, Márcia Camargo. “Não há diretriz clara no país em relação à viabilidade e tantos empreendimentos em uma só bacia. Precisamos defender a Constituição Federal, que garante a permanência dos processos ecológicos e que veda a extinção de espécies”, diz, ao criticar a retirada forçada do ex-técnico do Ibama, Nilvo Silva, que defendia as Avaliações Ambientais Integradas às bacias hidrográficas, antes dos EIA-RIMAs, o que poderia inviabilizar estes projetos. Para Brack, o Eia-Rima é tendencioso e nada sério. “É uma vergonha. O estudo subestima a exuberância da área”.

“A área com florestas em estágio avançado de sucessão é muito maior do que os 158 hectares calculados pelo consórcio empreendedor”, critica o biólogo e mestre em Botânica, Martin Grings. O ornitólogo Márcio Reppening, do Museu de Ciências Naturais da PUC, diz serem primários os erros de identificação de espécies, “as informações estão desconexas, o estudo é insuficiente e previdências devem ser tomadas”.

Emiliano Maldonado, advogado do Ingá, diz concluir que o Eia-Rima “é fraudulento, a conclusão de viabilidade é falsa e, pelos impactos, posso afirmar que este é um caso de polícia”. Isso porque a sonegação de informações por parte do Ibama e do consórcio é ato previsto na Lei de Crimes Ambientais. “Temos muito interesse em conhecer a manifestação do Ibama sobre Pai Querê”, antecipa o advogado.

MORADORES SÃO FAVORÁVEIS

Quase menos da metade do público da audiência era de moradores de Bom Jesus, município que sediou a mesma atividade de cidadania na noite anterior, reunindo quase 500 pessoas. Parte delas, cerca de 100, se deslocaram a Porto Alegre às custas do Consórcio empreendedor, formado por Alcoa, Votorantim e DME Energia, com grande parte dos mesmos representantes da Baesa, consórcio da “famosa” hidrelétrica Barra Grande, que acabou devastando 6 mil hectares de florestas, baseado em um estudo considerado  fraudulento, em 2004. A audiência de São Joaquim, que foi suspensa via liminar impetrada pela ONG Ingá, devido a ausência de documentos do Ibama, está prevista para 17 de abril.

Presente nos dois eventos, o pastor Eloi declara apoio voluntário à implantação de Pai Querê e sugere atendimento às famílias remanejadas. Salas de aula e laboratórios estão entre os investimentos que seriam contemplados no projeto em Bom Jesus, “em parceria com outros órgãos públicos”, declara Edson Schiavotelo, que já “circulou” pela empresa Alcoa e Consórcio Baesa.

O prefeito de Bom Jesus, José Paulo de Almeida defendeu até mesmo o corte (ilegal) das araucárias que estão escrituradas nas propriedades. Ele é favorável à obra, assim como o diretor do Departamento de Meio Ambiente do município, Luís Clóvis Corá.

Informações e foto:
Assessoria de Imprensa da Agapan/RS
Jornalista Adriane Bertoglio Rodrigues