Transgênicos para quem? Capítulo 1

LIVRO
Transgênicos para quem? Agricultura, Ciência, Sociedade (MDA/Nead 2011)

Parte 1 - OGM: Sair do reducionismo científico visando uma ciência aberta 
para a sociedade
 
Capítulo 1
 

TRANSGÊNICOS, PODERES, CIÊNCIA, CIDADANIA¹

Gilles-Eric Séralini

Transgênicos para quem?

Os poderes técnicos, científicos, médicos, sociais, jurídicos, militares, econômicos e políticos são todos, em um momento ou outro, inclinados para que a genética os utilize a seu modo. Atualmente, focalizam-se diretamente sobre os genes. O balanço provisório é inquietante.

Os poderes técnicos criam genes artificiais na integralidade a partir de construções quiméricas que permitem transpor as barreiras das espécies. As mesmas técnicas permitem ainda clonar ou detectar um traço ínfimo de gene sobre uma maçaneta de porta ou em um alimento.

Os poderes científicos asseguram o domínio da biologia molecular sobre os diferentes aspectos das ciências da vida. Ela é mais ávida de créditos e de cargos que as outras especialidades e pode até mesmo influenciar comitês de ética. Orienta as pesquisas,
os desenvolvimentos práticos ou industriais. Aliada à informática, a biologia dominará a vida do cidadão do século 21.

Os poderes médicos favorecem as grandes arrecadações de fundos públicos para a genética, sem que isso possa trazer, desde muitos anos, resultados à altura das promessas, como a terapia gênica, por exemplo.

Os poderes sociais, as seguradoras, os empregadores e os banqueiros se apropriam da genética para fins duvidosos.

Os poderes jurídicos, como a Corte Suprema nos Estados Unidos ou a Corte da Justiça Europeia, decidiram aceitar as patentes sobre os genes, e obviamente sobre os organismos vivos, o que é uma revolução incomensurável, e, além disso, são esses poderes jurídicos que autorizam ou não, no final, em caso de conflito, os Estados a plantarem os OGMs. Apelam por vezes a toda onipotência dos testes genéticos para tomarem suas decisões.

Os poderes militares apontam suas armas e defesas utilizando os genes, menos caros, mais fáceis de serem manipulados do que as armas nucleares e capazes de se reproduzir. Da luta contra o bioterrorismo ao controle agrícola ou genético, há apenas um passo. A caixa de Pandora das armas biológicas está aberta.

Os poderes econômicos vibram de prazer: o ser vivo será patenteado graças aos genes dos quais se tornarão proprietários privados; seus bens se estendem à agricultura, à aquicultura, aos animais de criação e, certamente, à farmácia. As empresas, pela primeira vez, tornam-se donas de direitos de reprodução de organismos vivos. Sem contar que oferecem as modificações genéticas e a clonagem a la carte.

Os poderes políticos subservientes aos interesses econômicos ditam regulamentações que apresentam atraso em relação aos avanços das técnicas; eles autorizam a disseminação dos OGMs no meio ambiente, a clonagem das células embrionárias e são, sobretudo, responsáveis pelo maior ou menor rigor nos controles. Estão esses poderes sendo inocentemente aconselhados pelos poderes científicos, cujos interesses econômicos cruzam com as biotecnologias? Os políticos de todas as partes vêm estimulando há tempos esse casamento ilegítimo.

Ciência reducionista ou integrativa?

Mas qual concepção da ciência anima esses conselheiros dos príncipes? A que integra a fisiologia dos organismos inteiros, a toxicologia em longo prazo, o meio ambiente, as propriedades complexas dos genes? Em resumo, a ecogenética? Ou uma ciência de bolso, reduzida à técnica, que propõe uma concepção da genética preparada em kit, aquela que veiculam sobretudo as páginas em papel glacé das revistas de grandes firmas, os lobbies nos parlamentos e os colóquios muito fechados? O conjunto representa supostamente a ciência oficial, em relação aos que são frequentemente considerados como apenas vulgares mídias exageradas, ou, pior, perante um cidadão que se supõe irracional − aquele que apreende, portanto, com bastante bom-senso a imensidão das interações nas redes do reino vivo.

Os slogans são repetidos pelos economistas e associados: “Um gene, uma proteína, uma função”; “Com os OGMs, fazemos cirurgia molecular com muita precisão; ou, ainda, o que a natureza sempre realizou”; “Escolha, em suma, o que lhe dá mais segurança”, subentende a publicidade científica; “Tudo para proteger o meio ambiente, certamente”; “Os OGMs não têm nenhum impacto negativo sobre a saúde, aliás, não mataram ninguém nos Estados Unidos”; “E alimentarão os mais pobres”; “A clonagem dará possibilidade de se reproduzir aos casais que não o puderam fazer”.

E poderíamos continuar com a lista por um longo tempo. O que é mais grave: todas essas afirmações ou são reducionistas, ou são falsas, ou representam apenas um aspecto muito reduzido do conhecimento. No que se refere aos genes, estes se multiplicam de célula em célula, de pai para descendente, ou por vezes por meio de transferências muito particulares. Eles se espalham, pulam nas células e, conforme as condições do meio ambiente, por vezes se modificam. Envelhecem, se poluem, trabalham em rede, têm interações positivas ou negativas e, sobretudo, de forma diferente segundo seus contextos. Nascem, morrem[2] extinguem-se lentamente[3] ou se suicidam[4]. Têm efeitos completamente inesperados, cujas regras nos escapam. Existe uma verdadeira ecologia dos genes que ainda conhecemos bastante mal.

Não compreendemos as sutilezas genéticas das espécies vivas que modificamos ou clonamos. Aliás, não conhecemos, afinal, tanto assim. Não sabemos, por exemplo, por que, nas mãos dos cientistas, essas técnicas não funcionam na maior parte dos casos, ou apresentam resultados bizarros. Fica claro que nossos dados sobre os genomas, ainda que bem parciais, correspondem somente à ínfima ponta emersa do iceberg. Ora, alguns declaram conhecer todo o genoma humano, para fazer com que as ações subam na Bolsa, desorientando até mesmo outros cientistas que neles acreditam momentaneamente. É uma ciência reducionista, e não integrativa, com muito pouco espírito de síntese, que é destinada aos tomadores de decisão. O desequilíbrio entre as ciências no poder também contribui para essa abordagem, mas outros parâmetros entram no jogo.

Observa-se frequentemente uma defasagem assustadora entre a realidade do saber (nossas noções ficam bem frágeis diante da complexidade surpreendente da vida) e o que por vezes é afirmado publicamente por certos grupos científicos ou econômicos, e retomado pelos políticos com a única finalidade de explorar a credulidade e a generosidade da população, agitando os chocalhos milagrosos. Evoquemos, por exemplo, as promessas da luta contra a seca graças aos transgênicos; ou o anúncio da descoberta de genes de doenças raras; e, ainda, os falsos avanços sobre as clonagens humanas. Para que servem essas quase mentiras? Para evitar os regulamentos ou os controles aprofundados? Para apoiar a ausência de rotulagem? Para os lucros comerciais de determinado poder econômico? Para a recuperação de doações generosas das grandes arrecadações públicas? A menos que certo poder procure assentar sua autoridade sobre o genético-total, nada está claro. Mas alguns se aproveitam da opacidade e da falta de transparência nas verdadeiras realizações e em sua avaliação.

A ciência serve à técnica e à economia antes de servir ao cidadão

“Todas as liberdades públicas são limitadas por outras liberdades públicas, inclusive a liberdade de expressão. Mas não a liberdade da pesquisa”[5], surpreende-se a jurista especialista em domínio de biotecnologia, Marie-Angèle Hermitte. A pesquisa fundamental é como a arte, uma criação magnífica, e sua morte seria a morte do homem. Mas é preciso ainda saber impor um prazo entre as descobertas e suas aplicações práticas, a fim de se avaliar sem restrição os verdadeiros progressos e os riscos. Será preciso talvez inventar espaços de liberdade pública que permitam que as aplicações da pesquisa em biologia não sejam sempre decididas sem a consulta ao cidadão. Deve-se impor os OGMs como divindades celestiais se ninguém os quer? Mas a informação é severamente controlada pelas agências de comunicação das empresas, ou pelo sistema da “ciência em festa” – uma vez que esta agora se habituou a celebrar a si mesma. Conheço os que recusam o selo de qualidade dessas manifestações que parecem, portanto, abertas. Têm por vezes mais publicações ou referências bibliográficas que outros, mas não correspondem tão bem ao discurso oficial do desenvolvimento econômico e do “Tudo está sob controle”, aí incluída também a ética.

Será necessário realizar plebiscitos, como o Criigen (Comité de Recherche et d’Information Indépendantes sur le Génie Génétique) os reclama, sobre as decisões que mudam o mundo, como as autorizações de plantio em grande escala dos OGMs ou como a clonagem? Tornemos os pesquisadores independentes dos fundos privados, auxiliando-os ainda mais, caso os julguemos úteis, e organizemos a contraperitagem urgente dos dossiês que modificarão a alimentação, a saúde, o meio ambiente e a reprodução humana. Nada será realizado sozinho.

Porque, efetivamente, no presente, a ciência serve muito mais e objetivamente à técnica e à economia do que à sociedade; ora, a técnica e a economia podem se desconectar dos interesses societais em curto, médio e longo prazo, como atestam exemplos múltiplos[6], simplesmente para os benefícios de algumas empresas. Não existe sindicalismo da informação científica e isso é lamentável.

Como será o futuro?

“A longo prazo, na realidade, a inteligência artificial e a engenharia genética representam um perigo para a supremacia do espírito humano”, assegura F. Dyson, laureado com o prêmio Templeton em 2000[7]. Se isso for verdade, a vontade democrática será então, infelizmente, a primeira a ser imolada no altar do sacrifício organizado pelos diferentes poderes, pois será um obstáculo. Já hoje, diversos tomadores de decisões querem impor os transgênicos, custe o que custar, acreditando em promessas não verificáveis. A clonagem para fins terapêuticos é um fato já aceito. As patentes sobre o ser vivo não serão mais verdadeiramente discutidas. E tudo isso pelos belos olhos da genética, ou da ciência? Certos políticos e industriais raciocinam, de acordo com o princípio da bola de neve: se os americanos o fizeram, será impensável não correr atrás deles.

À pergunta: “É necessário ter medo da ciência?”, Corinne Lepage, que trabalha tanto para que a aplicação do princípio da precaução seja um princípio de ação e escolha, responde: “A ciência retornará à conquista por essência do espírito humano quando tiver aceitado substituir o progresso tecnológico pelo progresso humano”[8]. Porque a precaução é o verdadeiro motor do progresso. Não se trata de parar tudo, mas de se assegurar uma progressão inteligente. O princípio da precaução permite repensar a economia, o crescimento e o comércio em função dos interesses superiores da saúde e do meio ambiente.

Portanto, a ciência estava destinada quase que de forma natural a esses belos avanços, essas sínteses, essas precauções, por sua natureza e pelos conhecimentos multifatoriais e apaixonantes que ela desperta sobre a complexidade da vida, sempre inspirando o respeito ao maravilhoso. Reduzimo-la, sequestramo-la, confinamo-la em vista de aplicações desorganizadas e não controladas, para maiores benefícios de alguns – com o risco de se colocarem como reféns a saúde humana, os equilíbrios sociais, o planeta e seu futuro. É tempo de se criar a ecogenética e de deixar a ciência respirar, a fim de se estimularem os estudos a respeito dos efeitos do meio ambiente sobre os genes e dos OGMs sobre a saúde e a biosfera. O trabalho de pesquisa, o verdadeiro, na realidade, não se limita a desenrolar uma bola dourada, sob o controle das multinacionais. A ciência deve manter-se em pé, sem a restrição nem a obsessão de ser imediatamente rentável, mantendo, tal como uma sentinela, o cuidado sobre o ecossistema e sobre a humanidade.

1 Traduzido do livro Génétiquement incorrecte [Geneticamente incorreto], de Gilles-Éric Séralini,
Capítulo Conclusão (Paris: Flammarion, 2003).
2 Estes dois fenômenos, quando da transposição, por exemplo (ativações, mutações).
3 Por metilações, é um dos casos.
4 DNA degrada-se ativamente no transcorrer do apoptose, morte celular programada.
5 HERMITTE, M.-A. Libération, 23-24 mar. 2002. M.-A. Hermitte é diretora de pesquisa no CNRS e na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais.
6 Cf., por ordem alfabética e notadamente: BOVÉ, J.; DUFOUR, F. Le monde n’est pas une
marchandise: des paysans contre la malbouffe. Paris: La Découverte, 2001; DI COSMO, R.; NORA,
D. Le hold-up planétaire. Paris: Calmann-Lévy, 1998; FORRESTER, V. L’horreur économique. Paris:
Fayard, 1996; Idem. Une étrange dictature. Paris: Fayard, 2000; GEORGE, S. Le rapport lugano. Paris:
Fayard, 2000; LEPAGE, C. On ne peut rien faire, Madame le ministre... Paris: Albin Michel, 1998;
LUNEAU, G. Les nouveaux paysans. Paris: Éd. du Rocher, 1997; PASSER, R. Éloge du mondialisme
par un “anti”-présumé. Paris: Fayard, 2001; SAINT-MARC, P. L’économie barbare. Paris: Frison-
Roche, 1994; SHIVA, V. Le terrorisme alimentaire. Paris: Fayard, 2001.
7 DYSON, F. Le soleil, le génome et Internet. Paris: Flammarion, 2001, p. 119.
8 Entrevista com Françoise Monier, em L’Express, 3 out. 2002.
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Obs.: Os próximos capítulos serão adicionados a seguir.
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2 comentários sobre “Transgênicos para quem? Capítulo 1

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